Magic: The Gathering existe há mais de 30 anos.
Poucos jogos de cartas conseguem atravessar décadas, mudar de geração, de público e ainda assim continuar relevantes.
Parte disso vem do design do jogo. Parte vem das cartas. Mas uma parcela enorme vem de algo menos óbvio: Magic nunca foi um jogo só.
Desde muito cedo, ficou claro que cada pessoa busca coisas diferentes sentando à mesma mesa.
Foi daí que surgiram conceitos de personalidade dos jogadores como Timmy, Johnny e Spike. Não são rótulos, mas sim formas de entender que o mesmo jogo podia atender desejos completamente distintos.
E, talvez sem perceber, o Magic acabou se tornando mais do que um card game.
Virou uma plataforma.
Sobre os 3 pilares da personalidade de jogadores
Timmy: Emoção e impacto. Gosta de jogadas e criaturas/efeitos chamativos criando momentos memoráveis. Para Timmy, o valor do jogo está em sentir algo acontecer na mesa — mesmo que isso não seja a jogada mais eficiente possível.
Johnny: Expressão e criatividade. Gosta de montar decks com ideias próprias, sinergias incomuns e interações inteligentes. Para Johnny, vencer é secundário; o mais importante é o deck “fazer a coisa” funcionar do jeito imaginado e mostrar uma solução diferente para o jogo.
Spike: Desafio e performance. Gosta do desafio do jogo, otimiza suas escolhas e mede sua habilidade contra outros jogadores. Para Spike, a diversão está em competir bem, tomar boas decisões e extrair o máximo do deck e de si mesmo.
O Magic “core”: o duelo 1x1
O Magic foi projetado originalmente como um jogo de duelo.
Um contra um. Onde cada decisão possui um peso direto no resultado.
Formatos como Standard, Modern e Pauper representam esse núcleo do jogo.
Aqui, a competição é o centro da experiência. O objetivo é claro, o caminho é técnico e a recompensa vem do domínio de um sistema composto por: Deckbuilding, leitura de metagame, sideboard, gerenciamento de recursos e tomada de decisão.
É o Magic onde o Spike se sente em casa e o Johnny encontra o desafio de provar que sua ideia criativa também pode ser vitoriosa.
Mesmo formatos que nasceram fora da Wizards, como o Premodern, só se sustentaram porque respeitam essa lógica central do duelo — tanto que acabaram sendo abraçados conforme a comunidade cresceu.
Esse é o Magic como ele foi concebido.
O Magic “adaptado”: multiplayer e casual
Com o tempo, a comunidade começou a usar esse mesmo jogo para criar outras experiências.
Commander, Tiny Leaders e tantos outros formatos surgem não por rejeição ao Magic original, mas por adaptação.
Eles pegam o mesmo conjunto de regras, as mesmas cartas, e expandem para algo diferente.
Aqui, o protagonismo não está apenas nas cartas.
Ele é dividido com as pessoas.
A política, as alianças temporárias, a leitura social da mesa e o ritmo passam a importar tanto quanto o deck.
Não é que esses formatos sejam “piores”.
Eles oferecem outra proposta.
Tanto que é comum ouvir alguém dizer que vai “jogar Commander”, e não simplesmente “jogar Magic”.
O jogo ainda está ali — mas a experiência é outra. O foco ali é outro. O Spike é bem-vindo, mas o Commander não deve ser a métrica principal para ele validar sua performance técnica.
A beleza da comunidade: formatos inventados
Talvez a maior prova da força do Magic seja o quanto a comunidade cria a partir dele.
Commander e Pauper não nasceram em salas de reunião da Wizards.
Nasceram de jogadores, juízes e grupos que enxergaram possibilidades diferentes no mesmo conjunto de cartas.
Isso transforma o Magic em algo vivo.
Formatos casuais e multiplayer usam o Magic quase como uma linguagem.
Às vezes como um jogo social. Às vezes como um RPG improvisado. Às vezes como um grande jogo de tabuleiro assimétrico.
O sistema aguenta porque foi bem construído.
E continua vivo porque as pessoas se apropriam dele.
A importância do ecossistema
O Magic só é forte porque existe um ecossistema.
O Spike tem o Modern para provar seu domínio técnico.
O Timmy tem o Commander para viver momentos épicos e histórias memoráveis.
O Johnny tem o Pauper para explorar sinergias escondidas e ideias improváveis.
Nenhuma dessas experiências invalida a outra.
Elas se sustentam mutuamente.
O Magic não sobrevive apesar de suas múltiplas faces.
Ele sobrevive por causa delas.
No fim das contas, não importa tanto qual formato você joga.
Importa que exista espaço para todos jogarem do jeito que faz sentido para eles. E onde cada "personalidade" sabe o que pode ser extraído daquela mesa.
E poucos jogos conseguem oferecer isso por tanto tempo.
—
Anjo Serra

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